terça-feira, 23 de dezembro de 2008

assim andam as coisas

Depois do jantar
Carlos Drummond de Andrade

Também, que idéia a sua: andar a pé, margeando a Lagoa Rodrigo de Freitas, depois do jantar.
O vulto caminhava em sua direção, chegou bem perto, estacou à sua frente. Decerto ia pedir-lhe um auxílio.
— Não tenho trocado. Mas tenho cigarros. Quer um?
— Não fumo, respondeu o outro.
Então ele queria é saber as horas. Levantou o antebraço esquerdo, consultou o relógio:
— 9 e 17... 9 e 20, talvez. Andaram mexendo nele lá em casa.
— Não estou querendo saber quantas horas são. Prefiro o relógio.
— Como?
— Já disse. Vai passando o relógio.— Mas ...
— Quer que eu mesmo tire? Pode machucar
.— Não. Eu tiro sozinho. Quer dizer... Estou meio sem jeito. Essa fivelinha enguiça quando menos se espera. Por favor, me ajude.O outro ajudou, a pulseira não era mesmo fácil de desatar. Afinal, o relógio mudou de dono.
— Agora posso continuar?
— Continuar o quê?
— O passeio. Eu estava passeando, não viu?
— Vi, sim. Espera um pouco.
— Esperar o quê?
— Passa a carteira.
— Mas...
— Quer que eu também ajude a tirar? Você não faz nada sozinho, nessa idade?
— Não é isso. Eu pensava que o relógio fosse bastante. Não é um relógio qualquer, veja bem. Coisa fina. Ainda não acabei de pagar...
— E eu com isso? Então vou deixar o serviço pela metade?
— Bom, eu tiro a carteira. Mas vamos fazer um trato.
— Diga.
— Tou com dois mil cruzeiros. Lhe dou mil e fico com mil.
— Engraçadinho, hem? Desde quando o assaltante reparte com o assaltado o produto do assalto?
— Mas você não se identificou como assaltante. Como é que eu podia saber?
— É que eu não gosto de assustar. Sou contra isso de encostar o metal na testa do cara. Sou civilizado, manja?
— Por isso mesmo que é civilizado, você podia rachar comigo o dinheiro. Ele me faz falta, palavra de honra.
— Pera aí. Se você acha que é preciso mostrar revólver, eu mostro.
— Não precisa, não precisa.
— Essa de rachar o legume... Pensa um pouco, amizade. Você está querendo me assaltar, e diz isso com a maior cara-de-pau.
— Eu, assaltar?! Se o dinheiro é meu, então estou assaltando a mim mesmo.
— Calma. Não baralha mais as coisas. Sou eu o assaltante, não sou?
— Claro.— Você, o assaltado. Certo?
— Confere.
— Então deixa de poesia e passa pra cá os dois mil. Se é que são só dois mil.
— Acha que eu minto? Olha aqui as quatro notas de quinhentos. Veja se tem mais dinheiro na carteira. Se achar uma nota de 10, de cinco cruzeiros, de um, tudo é seu. Quando eu confundi você com um, mendigo (desculpe, não reparei bem) e disse que não tinha trocado, é porque não tinha trocado mesmo.
— Tá bom, não se discute.
— Vamos, procure nos... nos escaninhos.
— Sei lá o que é isso. Também não gosto de mexer nos guardados dos outros. Você me passa a carteira, ela fica sendo minha, aí eu mexo nela à vontade.
— Deixe ao menos tirar os documentos?
— Deixo. Pode até ficar com a carteira. Eu não coleciono. Mas rachar com você, isso de jeito nenhum. É contra as regras.
— Nem uma de quinhentos? Uma só.
— Nada. O mais que eu posso fazer é dar dinheiro pro ônibus. Mas nem isso você precisa. Pela pinta se vê que mora perto.
— Nem eu ia aceitar dinheiro de você.
— Orgulhoso, hem? Fique sabendo que tenho ajudado muita gente neste mundo. Bom, tudo legal. Até outra vez. Mas antes, uma lembrancinha.Sacou da arma e deu-lhe um tiro no pé.
Texto extraído do livro "Os dias lindos", Livraria José Olympio Editora — Rio de Janeiro, 1977, pág. 54.

...esse momento...

nesse momento estamos todos curtindo o periodo de Natal..os shoppings lotados, as lojas cheias, muita gente gastando o 13º salário com roupas, equipamentos eletrônicos, e tudo mais que se o dinheiro pode pagar ou que o cartão pode parcelar. Fico impressionada como a idéia de Natal está comercializada, vendida ao mercado, e como as pessoas compram essa idéia acreditando que o natal é exatamento isso. Tava analisando dia desses, e vi que pra mim natal não é apenas isso, não que eu não seja uma consumidora assídua de shoppings centers, mas prefirir não aceitar essa versão do Natal das lojas americanas. Fiz uma árvore de natal, como todas as famílias consumidoras, mas ao inves de um pinheiro verde cheio de bolas vermelhas, papais noel gorduchos, e anjos europeus, comprei uma árvore de cipó com laços de chita, fita de cetim, bonequinhas de pano dançando frevo, um trio de forró pe de serra, e bonequinhos dançando forró. Bom tentei fazer diferente, pelo menos a árvore, tentei ir pro shopping mas não conseguir entrar em mais que 03 lojas - sinceramente isso não é natal, é o inferno....
Prefiro estar com minha família, me paizinho, minha mãe, irmã marido e sogra. Comendo, sorrindo e fazendo nossa parte - ajundando aqueles menos favorecidos - que clichê! Mas acredito que esse é a verdadeira idéia do Natal, a idéia de fazer parte de um todo, a idéia de que enquanto nos endividamos nos shoppings tem pessoas que não têm se quer o que comer, é clichê mas é verdade. Não podemos fechar as portas automáticas dos shoppings e esquecer que existe um mundo real lá fora, que chora, que sente fome, que tem frio, que não tem casa, que não consegue emprego, que não tem estudo, que está nas filas dos hospitais públicos, enfim ...o Natal do shoppings esquece de toda esse povo, que não conhece os shoppings, mas assitem àqueles que gastam o que tem e o que não tem nas lojas, e esquecem de gastar tempo, sorrisos, auxílio a quem a tempos não sabem o que é Natal.